O olho do olheiro precisa de régua
Olheiros dizem avaliar com método, mas decidem pela impressão geral. A pesquisa sobre seleção mostra que nota por critério, somada por regra fixa e repetida em vários jogos, erra menos. Como fazer isso na base.
Domingo de manhã, campo de terra, jogo do sub-15. O olheiro do clube volta para a sede com um nome anotado no verso do ingresso e uma frase: “o camisa 10 é diferente”.
Na terça, a diretoria pergunta diferente em quê. A resposta vem com convicção e sem nenhum número: “você tem que ver jogar”.
Pode ser que ele tenha razão. O problema é que ninguém tem como saber, nem ele.
O que os olheiros dizem e o que eles fazem
Em 2022, pesquisadores da Universidade de Groningen perguntaram a 125 olheiros de futebol como eles identificam talento. Três respostas chamam atenção.
A primeira: os atributos técnicos foram apontados como os mais importantes, mas descritos de forma ampla, sem dizer exatamente o que estava sendo olhado. “Bom tecnicamente” é uma conclusão, não um critério.
A segunda: os olheiros disseram avaliar de maneira estruturada. Mas, na hora de fechar a previsão, juntavam tudo de cabeça, numa impressão geral. Os autores lembram que a literatura de seleção considera essa forma de integrar a informação pouco confiável.
A terceira é a mais curiosa. Quem observava atletas de 12 anos ou menos achava, em média, que só dá para prever quem chega ao profissional por volta dos 13,6 anos. Ou seja: a mesma pessoa que recomenda um garoto de 11 anos acredita que ainda é cedo demais para saber.
Impressão geral contra regra fixa
A psicologia estuda essa disputa há setenta anos. De um lado, o julgamento clínico: o especialista olha tudo e dá o parecer. Do outro, o mecânico: cada critério recebe uma nota e uma regra definida antes soma as notas.
A maior revisão sobre o tema, uma meta-análise de Grove e colegas, reuniu estudos de previsão em áreas como saúde e psicologia. A regra fixa acertou, em média, cerca de 10% a mais. Ela foi claramente superior em 33% a 47% dos estudos; o julgamento clínico foi claramente superior em só 6% a 16%. E a vantagem se manteve independentemente da experiência de quem julgava.
No esporte, a mesma equipe de Groningen revisou os processos de seleção de atletas e chegou a duas recomendações. Primeiro, trocar a impressão geral do especialista por regras de decisão combinadas antes, que costumam prever melhor. Segundo, avaliar o atleta jogando, no ambiente do esporte, e não só em teste isolado.
Repare que a segunda recomendação defende o olheiro. Ninguém está dizendo para trocar o olho por cronômetro. O que a pesquisa questiona é a soma feita de cabeça, não a observação.
Experiência não resolve sozinha
Se o problema fosse falta de estrada, olheiro experiente acertaria mais. Um estudo no handebol alemão testou exatamente isso, conferindo as escolhas de técnicos dez anos depois.
Técnicos da seleção nacional e de seleções regionais tinham escolhido os mais talentosos num acampamento de base. Uma década depois, os de nível nacional não tinham acertado mais que os regionais. Jogadores iniciantes de handebol, assistindo a vídeos curtos, ficaram no mesmo nível de jogadores avançados. E um modelo estatístico simples, feito com os testes motores do acampamento, superou todas as previsões humanas.
É um estudo só, com amostra pequena, e os próprios autores tratam como exploratório. Mas aponta na mesma direção que o resto: o que faltava não era olho, era método para registrar e somar.
A armadilha do mês de nascimento
Tem um viés que todo mundo na base conhece e que a impressão geral amplifica.
Helsen e colegas analisaram seleções de base de dez países europeus e encontraram, do sub-15 ao sub-18, excesso de atletas nascidos no primeiro trimestre do ano. Quem nasce em janeiro pode ter quase um ano de vantagem física sobre quem nasce em dezembro na mesma categoria, e essa vantagem é facilmente confundida com talento.
Na impressão geral, isso some. “Ganha todas no corpo” vira “é diferente”. Separando a nota do perfil físico da nota técnica e da leitura de jogo, dá para ver se o atleta está ganhando por jogar melhor ou só por ser maior agora.
Quatro hábitos que dão régua ao olho
1. Nota por critério, nunca uma nota só
O primeiro passo é parar de dar uma nota geral. Avalie cada dimensão separadamente: capacidade técnica, leitura tática, perfil físico, comportamento, ofensivo e defensivo, ou os critérios que o seu clube usar.
E deixe a soma para a regra. A nota da observação sai da média ponderada das dimensões, com pesos definidos antes do jogo. Ninguém digita a nota final; ela é consequência do que foi avaliado.
2. Pesos por posição, decididos com calma
A régua de um goleiro não é a de um atacante, e a do sub-15 não precisa ser a do profissional. Os pesos são a parte da avaliação que deve ser discutida pela comissão na sala, sem nenhum atleta na frente, e não reinventados a cada jogo.
No Visão de Jogo, a régua é configurada por equipe e posição: de 2 a 15 critérios, cada um com peso de 0 a 5. Um clube que quer reduzir o efeito do mês de nascimento pode, por exemplo, dar menos peso ao perfil físico na equipe sub-15 do que na sub-20.
3. Um jogo é uma amostra, cinco jogos são uma tendência
Nenhum atleta pode ser julgado por noventa minutos, ainda menos por trinta e cinco vindo do banco. Registre cada ida ao jogo como uma observação própria, com data, adversário, competição, minutos vistos e se ele foi titular.
A nota geral do atleta passa a ser a média das observações. E aparece uma coisa que nenhuma impressão mostra: a evolução.
O radar compara a última observação com a média de todas. Se as duas formas são parecidas, o atleta é consistente. Se a última é muito maior que a média, vale perguntar se foi um grande dia ou uma evolução real, e a resposta está no histórico.
4. O parecer escrito continua obrigatório
A régua não substitui a palavra do olheiro: organiza. Os números dizem quanto; os pontos fortes, os pontos a melhorar e o resumo dizem por quê. É ali que entra o que a nota não captura: “primeiro toque sempre de frente para o gol”, “perde duelos de corpo contra volantes mais fortes”, “nasceu em novembro”.
Escreva o parecer como se fosse lido por alguém que não estava no jogo. Porque vai ser.
Da arquibancada para a diretoria
Observação que fica no caderno do olheiro não vira decisão. Ela precisa chegar a quem decide, no formato que essa pessoa entende, e precisa ser fácil de registrar na hora, enquanto o jogo acontece.
O módulo de Observação foi desenhado para o celular antes do computador, justamente porque o trabalho acontece na arquibancada.
Cada atleta anda por um funil: observado, acompanhando, recomendado, convidado ou descartado. As transições são fechadas, então ninguém pula etapa: um atleta só chega a convidado depois de ter sido recomendado.
Na hora de levar para a diretoria ou para o técnico principal, a ficha sai por PDF ou por link público, com validade, limite de acessos e senha opcional. Quem recebe não precisa de conta.
E a lista do clube passa a mostrar onde cada nome está no funil, com a nota de todos lado a lado.
Comece no próximo jogo
- Defina seis critérios antes de sair de casa. Os seis padrão servem para começar. Ajuste depois de dez observações, não antes.
- Combine os pesos com a comissão, por posição. Uma vez. Na sala, sem atleta na frente.
- Uma observação por jogo, mesmo curta. Trinta minutos vistos são um registro, desde que anotados como trinta minutos.
- Não recomende com uma observação só. Três é o mínimo para ver uma tendência; cinco é melhor.
- Pergunte o mês de nascimento. E escreva no parecer quando a vantagem do atleta for principalmente física.
O módulo de Observação do Visão de Jogo faz esse caminho inteiro: régua configurável por posição, nota calculada pelos pesos, histórico com radar e evolução, funil de status e a ficha pronta para mandar por link ou PDF. Ele faz parte dos planos pagos.
O resumo do quadro
O olho do olheiro não é o problema. A pesquisa sobre seleção defende justamente avaliar o atleta jogando, que é o que o olheiro faz.
O problema é a soma. Juntar seis impressões numa só, de cabeça, depois de um jogo, é o tipo de decisão em que especialista de qualquer área erra mais do que uma regra simples.
Separar os critérios, combinar os pesos antes, repetir a observação e escrever o porquê não tira o olheiro do processo. Só faz com que a frase “o camisa 10 é diferente” venha, finalmente, acompanhada de diferente em quê.
Fontes
- Bergkamp, T. L. G., Frencken, W. G. P., Niessen, A. S. M., Meijer, R. R. & den Hartigh, R. J. R. (2022), “How soccer scouts identify talented players”, European Journal of Sport Science 22(7), 994-1004. Questionário com 125 olheiros.
- den Hartigh, R. J. R., Niessen, A. S. M., Frencken, W. G. P. & Meijer, R. R. (2018), “Selection procedures in sports: Improving predictions of athletes’ future performance”, European Journal of Sport Science 18(9), 1191-1198.
- Grove, W. M., Zald, D. H., Lebow, B. S., Snitz, B. E. & Nelson, C. (2000), “Clinical versus mechanical prediction: a meta-analysis”, Psychological Assessment 12(1), 19-30.
- Schorer, J., Rienhoff, R., Fischer, L. & Baker, J. (2017), “Long-term prognostic validity of talent selections: comparing national and regional coaches, laypersons and novices”, Frontiers in Psychology 8, 1146.
- Helsen, W. F., van Winckel, J. & Williams, A. M. (2005), “The relative age effect in youth soccer across Europe”, Journal of Sports Sciences 23(6), 629-636.