O que o treinador esquece do jogo
Na segunda-feira, a comissão discute um jogo que ninguém lembra direito. A pesquisa mediu: treinador formado, tomando nota, acerta 59% do que aconteceu. Marcar o vídeo resolve, e hoje leva uma tarde.
Segunda-feira de manhã, sala da comissão. Alguém diz que o time está perdendo a bola na saída. Todo mundo concorda. O auxiliar lembra de dois lances, o preparador lembra de um terceiro, o treinador tem certeza de que foi pior que isso.
Aí vem a pergunta que trava a reunião: foram quantas vezes?
Ninguém sabe. E a semana inteira vai ser planejada em cima dessa dúvida.
A memória do treinador já foi medida. Duas vezes.
Em 1986, Franks e Miller mostraram um tempo de um jogo internacional a observadores e depois cobraram o que tinha acontecido, em seis categorias. O acerto ficou em 42%.
Vinte e dois anos depois, Laird e Waters refizeram o teste com treinadores formados, gente com licença e tempo de estrada. E foram generosos: deixaram todos tomarem nota durante os 45 minutos.
O acerto subiu para 59,2%.
Vale ler devagar. Não é torcedor lembrando do jogo no bar. É o treinador qualificado, com caneta na mão, respondendo sobre a partida que acabou de assistir. E ainda assim dois em cada cinco lances decisivos saem errados ou não saem.
O achado que incomoda mais que o número
Tem um detalhe no estudo que costuma passar batido: os treinadores com menos experiência lembraram melhor que os mais experientes.
A explicação que os autores levantam é desconfortável. No mais experiente, a expectativa contamina a percepção. Você não guarda pouco do jogo: você guarda o que já esperava ver.
Voltando à sala da comissão. Se todo mundo entrou no jogo convencido de que o time perde a bola na saída, a segunda-feira vai ter três exemplos de perda na saída. Eles existiram mesmo. O que ninguém consegue responder de cabeça é se foram três, oito ou um.
O que muda quando o jogo vira uma lista
Marcar lance em vídeo não é análise. É o passo antes dela: transformar o jogo numa lista de instantes com nome.
“Perdemos na saída” deixa de ser impressão e vira nove registros, cada um com minuto, duração e o vídeo atrás. A conversa muda de assunto sozinha. Em vez de discutir quem lembra melhor, a comissão assiste às nove e discute o que elas têm em comum.
E muda em outros lugares também:
- O zagueiro que jura que só saiu do lugar duas vezes vê as duas, e vê as outras quatro.
- O time enfrenta o mesmo adversário no returno e alguém abre a marcação do primeiro jogo em vez de recomeçar do zero.
- O atleta que vai ser oferecido para uma peneira sai com os lances dele, não com o jogo inteiro.
- A conversa com o pai do garoto do sub-15 tem imagem, e acaba antes de virar discussão.
Então por que quase ninguém faz?
Em 2021, 200 treinadores dinamarqueses com licença UEFA A e Pro foram perguntados exatamente isso. As duas maiores barreiras foram custo e tempo, nessa ordem. E todos, sem exceção, disseram que queriam um analista dedicado.
O tempo tem número. Marcar uma partida de 90 minutos leva de uma hora e meia a duas horas, e isso com o profissional treinado e a ferramenta cara aberta.
No clube que não tem analista, a conta fecha do jeito conhecido: o auxiliar promete revisar o jogo, revisa vinte minutos, a semana começa e o vídeo fica para depois. Depois nunca chega.
O que quebra esse ciclo não é contratar mais gente. É marcar enquanto assiste, uma vez só, e terminar junto com o jogo.
Quatro coisas que separam quem marca de quem desiste
1. Poucas tags, uma tecla cada
A tentação é criar trinta categorias antes do primeiro jogo. Não sobrevive ao primeiro tempo: com trinta opções você para o vídeo para procurar o botão. E parar o vídeo é exatamente o que faz a marcação demorar mais que a partida.
Comece com seis a oito, cada uma num número do teclado. O olho fica no jogo, a mão acha a tecla sem procurar.
2. O lance não começa quando você aperta a tecla
Você só sabe que foi contra-ataque depois que ele acabou. Se a marcação começasse no instante da tecla, todo clipe começaria tarde e cortaria justamente a origem do lance, que é o que interessa.
Por isso cada tag guarda dois números: quantos segundos o clipe recua antes da tecla e quantos avança depois.
E cada tag pede uma janela diferente. Escanteio quer pouco antes e bastante depois, porque o que importa é a bola na área. Contra-ataque quer os dez segundos anteriores, que são onde a bola foi recuperada. Ajuste depois do primeiro jogo, com o vídeo na frente, que é quando você descobre o seu tempo de reação.
3. A linha do tempo mostra o que a lista esconde
Depois de marcado, o jogo ganha uma forma. E a forma diz coisas que nenhuma planilha diz.
Onde as perdas se concentram. Se o adversário só passa a pressionar depois do intervalo. Se os escanteios vêm em rajada nos últimos vinte minutos, junto com o cansaço. Isso aparece de imediato numa faixa por tag, e não aparece nunca numa lista de minutos.
4. Conferir precisa ser mais rápido que remarcar
Marcar sem poder conferir gera desconfiança, e desconfiança gera marcação em dobro. A lista ao lado do vídeo, filtrada por tag, resolve isso: você vê as 29 finalizações do jogo, clica na de 1:16:52 e está lá.
É também o que responde a pergunta da segunda-feira em quinze segundos, no meio da reunião.
O erro que só aparece do outro lado
Esse merece uma seção própria, porque custa caro e demora a dar as caras.
O vídeo que você tem é o do YouTube, com três minutos de vinheta, entrevista e escalação antes do apito. O vídeo que o analista do clube parceiro tem começa na bola rolando.
Você marca oitenta lances no seu vídeo e manda. Os oitenta chegam três minutos adiantados. E ninguém percebe na hora, porque cada clipe, sozinho, parece plausível: sempre tem algo acontecendo em campo.
A saída é um clique no começo: marque o apito inicial. Depois, na hora de mandar o material para alguém, você escolhe em que relógio ele sai.
- Tempo do vídeo, quando quem recebe vai assistir ao mesmo vídeo que você.
- Tempo de jogo, contado do apito, quando quem recebe tem outra gravação da mesma partida.
O arquivo sai no padrão que os programas de análise de vídeo importam. Ou seja: o material que você marcou continua sendo seu quando muda de mão, de clube ou de programa.
Comece na semana que vem
Sem comprar nada além do que você já tem:
- Escolha seis tags. Não oito, não vinte. Gol, finalização, escanteio, falta, contra-ataque e perda de bola dão conta do primeiro jogo. Troque as que não servirem depois.
- Marque o apito inicial antes de qualquer coisa. É um clique, e é o que decide se o material vai servir para outra pessoa algum dia.
- Assista uma vez, sem pausar. Não busque precisão de milésimo: o recuo e o avanço de cada tag existem justamente para perdoar o seu tempo de reação.
- Leve três recortes para a semana, não trinta. A pesquisa sobre preleção é clara sobre quantos recados sobrevivem até o segundo tempo, e o número é baixo. A marcação serve para você escolher os três com fundamento.
O Tagging do Visão de Jogo faz esse caminho inteiro dentro do navegador: link do YouTube ou arquivo do seu computador, tags com atalho e janela própria, linha do tempo por tag e o arquivo pronto para entregar no fim.
O vídeo nunca é guardado. O arquivo do seu computador é lido dentro do navegador e não sobe para servidor nenhum. Fechou a aba, acabou. O que fica são as marcações.
O resumo do quadro
A memória do treinador não é ruim. Ela é humana, e a pesquisa mediu o tamanho disso duas vezes, com quarenta e um por cento de sobra.
O que mudou não foi a memória. Foi o custo de não depender dela. Marcar um jogo já exigiu um analista dedicado e uma licença cara. Hoje exige uma tarde, seis teclas e a disciplina de marcar o apito inicial antes de começar.
E, na segunda-feira seguinte, alguém finalmente consegue responder quantas vezes.
Fontes
- Franks, I. M. & Miller, G. (1986), “Eyewitness testimony in sport”, Journal of Sport Behavior 9(1), 38-45. Acerto de 42% na recordação de eventos de um tempo de jogo.
- Laird, P. & Waters, L. (2008), “Eyewitness Recollection of Sport Coaches”, International Journal of Performance Analysis in Sport 8(1), 76-84. Acerto de 59,2% entre treinadores formados, com anotação durante o jogo.
- Andersen, L. W., Francis, J. W. & Bateman, M. (2021), “Danish association football coaches’ perception of performance analysis”, International Journal of Performance Analysis in Sport. Custo e tempo como as duas maiores barreiras, entre 200 treinadores UEFA A e Pro.
- Herold, M., Kempe, M., Ruf, L., Guevara, L. & Meyer, T. (2022), “Shortcomings of applying data science to improve professional football performance”, Frontiers in Sports and Active Living. Estudo piloto de intervenção com vídeo em 24 jogadores profissionais, sem ganho estatisticamente significativo.
- Performance analysis in football: what is it, Catapult. De 1h30 a 2h de marcação por partida de 90 minutos.